quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O outro lado da moeda

O outro lado da moeda

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os últimos anos do século XX, as mudanças tecnológicas junto ao rápido crescimento da população humana vêm provocando uma grande transformação nos sistemas naturais de forma nunca vista, despertando, assim o interesse pela ecologia aonde esta vai se tornando parte essencial na preservação da vida.
Nesse processo torna-se necessária a criação de áreas de preservação e conservação da vegetação nativa e da fauna silvestre.
Nestas áreas que pertencem ao governo, onde é proibido qualquer tipo de exploração de recursos, principalmente de animais e vegetais, solo, pinturas, relevo e outros de grande importância para a conservação da cultura, a ciência e a educação, são consideradas como potenciais que devem ser avaliados e explorados, devendo contribuir com o desenvolvimento econômico dessas regiões.  
Os governantes bem como membros da sociedade de vários países vem se organizando, oficialmente, ou por meio de Entidades Associações ou Agências Oficiais, com o objetivo de definir e incentivar a preservação da natureza bem como as questões relacionadas com o meio ambiente, exigindo assim a colaboração de especialistas de várias áreas, dentre estas as ciências naturais, políticas e sociais.
Além de promover estudos e pesquisas, bem como a aplicação de leis de proteção ambiental, elaboração e execução de projetos educacionais no setor ou campo específico, ou seja, de acordo com a luta pela preservação de espécies em extinção devendo trazer benefícios para as comunidades, estas organizações ainda têm como finalidade desenvolver trabalhos que venham atender os seus objetivos.
No Brasil a diversidade é extensa, são vários tipos de clima, planícies e regiões montanhosas, que determinam a existência de diferentes tipos de vegetação onde cada uma abriga grande diversidade de animais, o que faz com que estas tenham as suas próprias características, motivando assim, a criação de várias áreas de preservação ambiental.
Uma destas áreas é o Parque Nacional da Serra da Capivara, considerado pela UNESCO, Patrimônio da Humanidade, localizado ao sudeste do estado do Piauí.
Embora haja uma polêmica sobre a sua localização geográfica este tem como cidade mais próxima, Coronel José Dias, abrangendo ainda uma área de mais três cidades, sendo São Raimundo Nonato, João Costa e Brejo do Piauí, que encontram-se em local de clima quente e sem chuva na maior parte do ano, onde sua principal característica é o solo que é pedregoso e seco. Sendo assim, nele cresce uma vegetação, resistente ao longo período de seca, que é chamada de caatinga.  
Além das características ambientais e culturais outra de maior importância é o turismo. Este é fundamental para o setor de desenvolvimento econômico, tornando-se o grande mote para tornar a região de abrangência uma das maiores em relação ao desenvolvimento cultural econômico e turístico do estado.
De acordo com estudos de alguns documentos da FUMDHAM – Fundação Museu do Homem Americano - o que motivou a criação do Parque foi "a caça comercial que se transformou numa prática popular o que provocou a diminuição de algumas espécies e a falta de predadores naturais desencadeando um crescimento descontrolado de outras, como cupim ou vespas cujos ninhos e galerias destroem pinturas". (www.fumdham.org.br/parque.asp)
Documentos classificam os habitantes como: “comunidades muito pobres, e que algumas das quais, exploravam roças no interior dos limites atuais do parque. Afirmam ainda que essas populações dificilmente compreendem a necessidade de proteger espécies animais e vegetais uma vez que os seres humanos apenas logram sobreviver e sendo assim, a população local depredava as comunidades biológicas, o patrimônio cultural e áreas circunvizinhas, pela caça, desmatamento, destruição de colmeias silvestres e a exploração do calcário de afloramento, ricos em sítios arqueológicos e paleontológicos”. (www.fumdham.org.br/parque.asp)
Todo parque ou área de preservação, ao ser criado, os seus habitantes devem passar, em primeiro lugar, por uma transformação, ou seja, uma conscientização dos motivos que estão levando aquela área a ser preservada, já que a tendência de todos os seres vivos é explorar o ambiente conquistado por eles, devendo se considerar que estas famílias que residem nessas áreas, com certeza utilizam os recursos que o meio lhes oferece para sua sobrevivência.
No caso do Parque Nacional da Serra da Capivara, ao que me parece, não houve ou não há esse tipo de trabalho, quando vejo uma das suas administradoras, em rede nacional (JN no ar), falar que os habitantes da região são “pobres” e "ignorantes", bem como afirma o referido documento da FUMDHAM - Fundação Museu do Homem Americano.
Pobres não! Todos nós brasileiros somos ricos em liberdade... Ignorantes, talvez... Esse povo visto como “ignorantes” não tiveram a oportunidade de uma conscientização, seja por meio de palestras, seja até mesmo pelo mutualismo, nome que se dá ao processo onde duas espécies diferentes interagem, não apenas pela competição ou jogo predador-presa e sim pela sobrevivência, mantendo-se próximas umas das outras ou formando equipes de trabalhos mútuos na natureza ou ainda por meio de parcerias, como por exemplo, a simbiose, conhecida pelos ecólogos, como "acordos convenientes que surgem em muitos momentos da vida para beneficiar mutuamente os parceiros envolvidos".
O que esse povo, talvez não saiba é que nome se dá ao processo onde quatis, gambás, pássaros e macacos que se alimentam de vegetais, embora os quatis não desprezem os ovos e o gambá também coma cobras, e estes servem de alimento para as onças e que as cobras, por sua vez, comem pássaros e são os alimentos dos gambás, dá-se o nome de cadeia alimentar, ou que ao desmatar uma área o resultado é que alguns animais que ali existiam e se alimentavam de capim, por exemplo, já não irão mais encontrar alimentos e que estes são obrigados a abandonar o local, podendo outros organismos, não existentes, passarem a viver ali modificando o ambiente, ou ainda que as plantas sejam responsáveis pela renovação do oxigênio causando um grande bem à saúde, ou seja, estas pessoas não tiveram a oportunidade de conhecer, cientificamente, os processos que ocorrem na natureza e que estes poderiam mudar o seu comportamento procurando formas adequadas de atuar sobre a terra.
Com certeza, conhecendo-os, pudessem ter despertado nestes o interesse em conservar o ambiente para não serem chamados de “ignorantes”.
O trabalho dos especialistas nestas reservas é necessário, mas é necessário, também que haja a participação das autoridades e da sociedade em geral.  Isso é fundamental para que cada segmento desta sociedade e cada cidadão a qual lhes pertence se envolvam nas questões ambientais e tomem conhecimento de todos os problemas que estão ocorrendo, para que possam participar da solução destes.
Não é do meu conhecimento que os trabalhos realizados por sua fundadora Dra. Niede Guidon sejam realizados por grupos de profissionais de várias áreas do conhecimento, onde estes devem ter os mesmos objetivos principalmente na área social, que é indispensável.
O que é do meu conhecimento é que os moradores do povoado Zabelê, quando da época da fundação do parque, foram expulsos do seu habitat, onde viviam há mais de cem anos, sem nenhuma orientação ou proteção no que diz respeito à preservação de sua cultura e ou vínculos familiares e até mesmo tenham sido submetidos a um processo de realocação o que é de costume acontecer diante de situações do tipo. Estes, até hoje sofrem as consequências por tal atitude grotesca.
Não se sabe se aquelas pessoas ao permanecerem ali iriam, de certa forma prejudicar a biodiversidade, pois ainda não se tem certeza que esta permanece crescendo em qualquer ecossistema ou não. Uma das suposições comprovada por cientistas é que algumas espécies foram extintas e outras devem ter surgido.
Não se sabe, também se estas tinham a prática em depredar aquelas pinturas, uma vez que estas estavam ali há milênios, de acordo com estudos, e se o fizeram não foi com más intenções. Acredito que estes não tinham o conhecimento de materiais não-renováveis, cientificamente falando, que prejudicavam a natureza o que para isso seria necessário haver a informação.
A falta de informações, na maioria das vezes leva os habitantes das regiões rurais a se comportarem como inimigos do ambiente, mas a troca desta, as pesquisas, as discussões, ainda são as melhores formas de reflexão para que o ser humano possa formar uma nova mentalidade e ser capaz de lutar na busca pela solução dos problemas e de medidas preventivas para as futuras gerações, pois quando os indivíduos conhecem os processos que ocorrem na natureza, são capazes de mudar o seu comportamento.
O que se sabe é que os ganhos sempre superam as perdas quando se atinge o equilíbrio, onde atualmente este modelo está em alta, mas, mesmo após décadas de debates, os ecólogos não resolveram essa complicada questão. E com isso quem paga são os "pobres ignorantes" que são jogados pra lá e pra cá e na sua ignorância não sabem que são usados como bodes expiatórios e ou personagens de uma triste história que teve começo e que parece não ter fim.
Portanto eu concordo quando a administradora, em nível nacional, chama os moradores de “ignorantes”. Eles são ignorantes sim, mas esta tem que assumir uma boa parcela de culpa.
Tenho visto que não é a primeira vez que os moradores de São Raimundo Nonato e região são tratados com desprezo pelos administradores do parque, onde já assisti em outras reportagens, a Dra. Niede Guidon falar que quando esta chegou a nossa cidade as pessoas estavam morrendo de fome e que esta trouxe trabalho e progresso.
Em nenhum momento desconheço a importância do Parque, apenas quero deixar bem claro a minha indignação e o meu repúdio na forma como algumas atitudes são tomadas pela administração em relação a projetos e a desapropriação de famílias, bem como o respeito a sua cultura, a falta de cuidado em conservá-la e a forma como estas pessoas são jogadas à sorte, o que lhes causa danos irreparáveis, levando alguns deles até mesmo a morte.
Embora não concorde com uma série de atitudes da administração quero enaltecer aqui o trabalho desenvolvido por meio do Projeto “Acordais”. Muito bom, diga-se de passagem, se analisarmos que a região é carente desse tipo de trabalho, mas seria bem melhor se quando os seus administradores se referissem ao Parque, principalmente quando estes estão na mídia, fosse de forma mais respeitosa com os habitantes da região, pessoas que ali já habitavam quando este foi fundado e que de certa forma já se organizavam à sua maneira.
Para finalizar quero deixar algumas indagações e ou questionamentos os quais gostaria que a administração viesse a público e respondesse não deixando no ar, já que acredito seja do interesse da população.
Um desses questionamentos é em relação à parceria com Prefeituras, se considerarmos a proporção do parque, que ao que parece é administrado apenas por uma empresa "privada", tendo parceria somente com o IBAMA e o Projeto “Chico Mendes”.
Gostaria de saber se existe alguma parceria com alguma prefeitura da região.  Se não o que impede de haver estas parcerias com as prefeituras das cidades circunvizinhas, sendo que estas dariam mais incentivo ao turismo ao construírem uma infra-estrutura para também sediarem algumas atrações do tipo que ocorreu com o festival e outras, para que estas, também pudessem usufruir do desenvolvimento sendo que na maioria das cidades onde existem áreas de preservação há esse tipo de parceria.
Outro questionamento, que é uma pergunta que não quer calar, vai de encontro às famílias do povoado Zabelê em relação a algum projeto social oferecido para as famílias para que estas não sofressem com a desapropriação. Ou ainda, qual foi o acordo que, provavelmente tenha sido feito com os moradores do povoado Sítio do Mocó para que estes permanecessem em seu habitat, o qual não foi oferecido para a população do povoado Zabelê.
Em sendo assim quero saber também se a administração do parque sabe como essas pessoas vivem hoje, bem como quantas já foram beneficiadas pelo parque e ficaram ricas e ou se tornaram intelectuais após a criação deste, já que estas eram consideradas “pobres e ignorantes”. Este número é considerável em termos de mudanças culturais?
Embora tenha visto de perto, nas minhas andanças pelo parque, alguns animais que nunca tinha visto antes gostaria muito, que a administração mostrasse em números concretos as mudanças, visíveis no ecossistema hoje, em relação à data da criação do parque, tanto em termos econômicos, bem como qual é o potencial explorado, e quais são os resultados positivos. Se há ou houveram ganhos, consideráveis, para a economia das cidades que as sediam, bem como em que situação estas mostram que melhoraram ou que passaram a melhorar em nível cultural e financeiro. Se houve esses avanços quais são as reais vantagens para seus habitantes.
Estas perguntas me inquietam quando penso que, como cidadãos, pertencentes a uma comunidade, seja ela de “pobres e ignorantes” ou não, o que precisamos é tomar mais conhecimento de tudo aquilo que nos cerca com mais essência, ou seja, com certeza, e com mais profundidade e não somente pela aparência, ou seja, pelo senso comum.
Precisamos nos sentir "Parte" e não ficar somente assistindo.
Em fim, entendo que nós precisamos sim de pessoas que cuidem do meio ambiente, mas que também respeitem a população, seja ela "pobre ou ignorante" e ou a nossa gente.
Ao analisar que devemos preservar o meio ambiente para as gerações futuras devemos preservar também aquelas do presente, para não corrermos o risco de salvar vidas em detrimento de outras.
Antes de pensar na morte temos que valorizar a vida daqueles que estão ao nosso redor, para que possamos construir uma boa estrutura, principalmente de valores morais.
Acredito que só a investigação, com mais profundidade e uma maior participação de todos vai contribuir para um ambiente mais organizado e com pessoas mais conscientes e livres de qualquer tipo de rotulação degradante.
Do contrário vamos sempre ter o desprazer de ouvir que o nosso povo é “pobre e ignorante”.
Acordais meu povo, pois o nome do projeto é muito sugestivo. Quem sabe este não foi proposital já que veio a calhar...

ACORDAIS!

Por Luma - Lucineide Maria
Fonte: Brunie - Fique por dentro da ecologia -